entrevista a Alvaro Costa e Silva – CIDADE LIVREentrevista a Alvaro Costa e Silvaentrevista a Alvaro Costa e Silvaentrevista a Alvaro Costa e Silva

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RIO – Ao publicar o quinto romance cuja ação e cenário se restringem à capital federal, o escritor e diplomata João Almino já se acostumou à pergunta: Brasília por quê? Nesta entrevista, ele explica: O que ocorre é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela . O livro mais recente, Cidade livre (Record, 240 páginas, R$ 39,90), focaliza justamente o período de construção da capital, há 50 anos.

Cidade livre focaliza o período fundador de Brasília. O senhor o preparou para que saísse nas comemorações dos 50 anos da cidade?

Nunca trabalho com prazos, e meus romances levam vários anos para serem escritos. Neste caso, contudo, quando me dei conta de que a pesquisa já estava feita e teria condições de concluir o romance, procurei assegurar-me com a editora de que houvesse coincidência com as comemorações, já que o romance tratava de uma história que se passava há 50 anos.

O senhor pesquisou muito?

Somente o necessário para criar atmosferas convincentes. Entre minhas leituras, que mais frequentemente abrangem a poesia, a ficção e a filosofia, incluí textos de história e ciências sociais, mapas, crônicas, entrevistas, notícias de jornal da época etc. Mas o fundamental, como sempre, é a criação dos personagens e de suas biografias, bem como a relação entre eles, em que surge conflito, paixão e mistério.

Como Brasília está aos 50?

Durante esses anos um presidente renunciou, outro foi deposto por um golpe, e o país viveu 20 anos sob a ditadura militar; outro ainda foi objeto de impeachment. Anos de chumbo e de turbulência, portanto. Mas foi também dentro desse período de 50 anos que o país se democratizou, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte e alcançou a estabilidade política e econômica. Brasília, ao longo desses 50 anos, acompanhou os humores do país. Os mesmos vastos espaços da Esplanada que, na época da ditadura, se dizia que eram autoritários, porque facilmente controláveis, serviram depois à luta pela democracia e a grandes protestos. A construção de Brasília contribuiu para o surto inflacionário do início dos anos 70 e não correspondeu ao ideal igualitário de seus arquitetos. Por outro lado, a interiorização do país e a integração de regiões antes isoladas de fato ocorreram, na linha do que desejava JK. Creio que mesmo os críticos mais ferrenhos da mudança da capital poderiam hoje concordar que Brasília é parte essencial do que é o Brasil, seja o Brasil do atraso, seja o Brasil moderno. Mesmo que fosse possível destruir seu aspecto físico, a cidade sobreviveria sob a forma do mito que acompanhou toda a história do Brasil independente.

Ainda há, na Brasília de hoje, grandes aproveitadores como o pai do narrador?

Ao construir o personagem me interessava menos denunciar o aproveitador, que existe em toda parte, do que construir uma trajetória, uma evolução, em que não ficasse de lado a humanidade do personagem, suas contradições, suas ambições, a moral própria que o guiava e a imbricação entre seu arrivismo e o sonho fundacional. Pareceu-me interessante tentar iluminar os vícios e virtudes presentes no ato de criação da grande obra. Imagino que este, como os demais personagens, ainda possam estar vivos em Brasília e em outras partes. Sua aposta no futuro ainda é a mesma. A euforia é semelhante. As expectativas que envolvem alguns desses personagens são quase as mesmas: JK previa que o Brasil em dez anos seria a quarta ou quinta potência econômica do mundo. Esperemos, contudo, que hoje os erros sejam menores e as vontades estejam melhor ancoradas.

Além da cidade, que relação há entre os seus romances?

Os cinco diferem uns dos outros quanto a suas perspectivas, temas, escolha do tempo e até mesmo à técnica literária empregada. Cada um pode ser lido de maneira independente. No entanto, é possível estabelecer linhas de contato entre um e outro, sobretudo através de alguns personagens. O personagem secundário de um livro pode aparecer em outro como personagem central e, ao contrário, um personagem importante de um livro pode aparecer mais adiante como personagem secundário. Algumas questões também são revisitadas com novas feições: a da criação, da fundação, do novo.

O senhor não concorda com a definição romancista de Brasília que lhe é atribuída. Por quê?

O que cheguei a dizer é que uma cidade não define uma literatura. Dois romances produzidos numa mesma cidade podem ser mais diferentes entre si do que outros dois produzidos em cidades de continentes distintos. Somente para a literatura regionalista o lugar tem algum sentido definidor. A grande maioria dos autores que situam suas histórias no Rio, São Paulo, Nova York, Paris, Londres, Moscou ou em pequenas cidades ou aldeias não são conhecidos como fazendo uma ficção desses lugares. É possível, contudo, pensarmos na Paris de Balzac, na Londres de Dickens ou no Rio de Janeiro de Marques Rebelo. Se existir uma Brasília de João Almino, então humildemente devo aceitar a definição de romancista de Brasília , mas me parece que minha literatura não é enraizada, não está tão vinculada assim ao lugar, e sua dimensão, digamos assim, antropológica, sociológica ou descritiva da paisagem local é relativamente menos importante. O que ocorre, me parece, é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Por que Brasília, me perguntam às vezes? Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela excelentes escolhas, por sinal do que em Brasília.

O que lemos em Cidade livre é texto destinado a um blog. Mas o personagem-autor queixa-se amiúde da intervenção de um revisor chamado João Almino…

Foi uma maneira de introduzir mais uma camada de leitura e reforçar a impressão de que o narrador existe independentemente do autor cujo nome vem estampado na capa do livro. Tratando-se de um romance, nada impede, contudo, que esse João Almino revisor seja um personagem fictício.

O que acha dos blogs em geral e dos blogs literários em especial?

A internet vai compondo uma enorme enciclopédia, imperfeita, cheia de erros, hipertexto que se atualiza a cada instante e que lemos de forma fragmentada. Não acho mau que seja assim. Quanto mais se discutam e mais circulem as ideias melhor, e os blogs podem estar a serviço da discussão e da circulação das ideias. Os blogs literários podem prestar um bom serviço à literatura. Mas com a proliferação dos blogs em geral, para cada leitor vai se tornando cada vez mais importante a seleção daqueles com os quais tenha reais afinidades, pois ninguém tem tempo para tanta leitura dispersa.

Há quem veja um diálogo da sua obra com a do Machado de Assis maduro. O senhor concorda?

Machado é uma referência fundamental para a literatura brasileira. Muitas das questões que sua obra levanta continuam vivas e dialogando com nosso tempo. Por isso nunca deixo de ser um seu leitor assíduo, e o ano passado cheguei a publicar um livrinho sobre as Memórias póstumas, intitulado O diabrete angélico e o pavão. Nos meus romances há poucas referências explicitadas à obra de Machado. O leitor e crítico atentos poderão, contudo, perceber a homenagem que às vezes faço a ele e a seu humor, não para imitá-lo, nem para repeti-lo, mas para melhor me situar e em boa companhia diante das questões e inquietações de nossa atualidade.

Com todo o jeito de clássico

por Eustáquio Gomes*

Não é sempre que aparece um romance maduro, feito para durar, com atributos de clássico. Se as qualidades de um clássico são determinadas, entre outras coisas, pelo uso da linguagem, pela economia de meios e pela capacidade de espelhar a alma humana ou de reproduzir ou imaginar um construto social convincente, então talvez tenhamos em Cidade livre, de João Almino, um clássico no horizonte do possível.

João Almino já havia demonstrado essas qualidades em suas obras anteriores, desde Ideias para onde passar o fim do mundo (1987 ) até O livro das emoções (2008), todos ambientados em Brasília, que é também o cenário deste seu quinto romance, em que ele alcança o ápice de sua técnica, nada impedindo que a ultrapasse.

Nos romances anteriores, Almino fixou seus personagens com os conflitos do nômade ou do homem em transição, o que é próprio de Brasília no contexto da cidade em processo. Em Cidade livre, eles se movimentam em pleno leito embrionário da cidade, o bairro provisório com aspecto de velho oeste (que depois se transformou no atual Núcleo Bandeirante), feito de tábuas sobre o chão poeirento do Cerrado, onde pululavam candangos, engenheiros, empreiteiros e cavadores de toda ordem. No horizonte, o espectro da cidade que surgia aos poucos, do nada, desafiando até as imaginações mais férteis.

A ação é nucleada em torno de uma família sem laços consanguíneos que justifiquem esse nome, um simulacro das multidões desagregadas que afluíam diariamente para a cidade provisória, em busca de trabalho nos canteiros de obras e, quem sabe, de fartura ou mesmo de enriquecimento fácil. Nesse cenário, figuras históricas como o presidente Juscelino e seus tocadores de obra (Israel Pinheiro, Bernardo Sayão), assim como os visitantes ilustres que desfilam pelas esplanadas nuas a convite do governo (Fidel Castro, Foster Dulles, André Malraux e John dos Passos, entre outros), fazem o pano de fundo para os personagens efetivos da história, cujo poder é mínimo ou mesmo nulo.

O narrador, que nessa época ainda era um menino, usa mais tarde as lembranças do pai adotivo e as suas próprias além das sugestões que recebe dos leitores de um blog que mantém sobre o assunto para compor um painel que de modo algum é a história oficial dos primórdios de Brasília, mas antes a história da gente simples da cidade provisória. No núcleo familiar onde cai o foco de luz do romance, sobressaem as duas tias do futuro narrador, ambas objeto de sua paixão adolescente, o pai de profissão incerta e vida quixotesca, além de Valdivino, um operário de múltiplos talentos que a cidade estrangula em sua teia de interesses e cuja morte presumida passa a ser um enigma.

Ao discurso oficial da cidade futurista como símbolo do progresso material somava-se uma pletora de lendas, origem das muitas seitas salvacionistas que até hoje permeiam a cidade. Valdivino é um nexo entre o pragmatismo do pai e o holismo daqueles que asseguravam (e continuam assegurando) que o projeto da nova capital federal era algo escrito nas estrelas, seus executores não passando de instrumentos de um plano superior. O que, nas palavras da profetisa Íris Quelemém, personagem recorrente dos romances de Almino, se traduz da seguinte maneira: Deus fez os homens como máquinas, definiu como iam funcionar e o que iam fazer, deixando que eles improvisassem somente pequenas variações dentro de um movimento previsível . Eram ideias que ao próprio JK não eram infensas, muito menos aos devotos de dom Bosco, o padre italiano que, em sonho, teria calculado as coordenadas da nova Canaã a terra prometida que verterá leite e mel situando-a entre os paralelos 15 e 20, ou seja, o Planalto Central brasileiro. Ao menos, assim diz o mito.

Este mosaico, que em mãos menos experientes poderia se converter em linguagem de epopeia, em João Almino é descrito com palavras cruas e uma contenção que evita toda grandiloquência, inclusive nos diálogos, vivos e abundantes ao longo do livro, mas embutidos no corpo do texto como para combater o excesso de ênfase. Com isso o romance ganha musculatura em vez de gordura, conferindo verossimilhança a um tema profuso e nada fácil.

Ao eleger a capital federal como o locus privilegiado de suas ficções, Almino corre o risco permanente de se ver confirmado a contragosto na posição de romancista de Brasília , como adverte a ensaísta Walnice Nogueira Galvão na apresentação do livro. De fato, as recensões que tratam de sua obra têm insistido nesse equívoco. Bem vista a coisa, a Brasília dos romances de Almino e os dramas que neles se desenrolam são universais e funcionam como metáforas da condição humana. Não fosse assim, Machado seria meramente um escritor do Rio e Dalton Trevisan um contista de Curitiba, quando na realidade são autores universais. E William Faulkner, para cúmulo, seria o romancista do condado de Yoknapathawpha.

RIO – Ao publicar o quinto romance cuja ação e cenário se restringem à capital federal, o escritor e diplomata João Almino já se acostumou à pergunta: Brasília por quê? Nesta entrevista, ele explica: O que ocorre é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela . O livro mais recente, Cidade livre (Record, 240 páginas, R$ 39,90), focaliza justamente o período de construção da capital, há 50 anos.

Cidade livre focaliza o período fundador de Brasília. O senhor o preparou para que saísse nas comemorações dos 50 anos da cidade?

Nunca trabalho com prazos, e meus romances levam vários anos para serem escritos. Neste caso, contudo, quando me dei conta de que a pesquisa já estava feita e teria condições de concluir o romance, procurei assegurar-me com a editora de que houvesse coincidência com as comemorações, já que o romance tratava de uma história que se passava há 50 anos.

O senhor pesquisou muito?

Somente o necessário para criar atmosferas convincentes. Entre minhas leituras, que mais frequentemente abrangem a poesia, a ficção e a filosofia, incluí textos de história e ciências sociais, mapas, crônicas, entrevistas, notícias de jornal da época etc. Mas o fundamental, como sempre, é a criação dos personagens e de suas biografias, bem como a relação entre eles, em que surge conflito, paixão e mistério.

Como Brasília está aos 50?

Durante esses anos um presidente renunciou, outro foi deposto por um golpe, e o país viveu 20 anos sob a ditadura militar; outro ainda foi objeto de impeachment. Anos de chumbo e de turbulência, portanto. Mas foi também dentro desse período de 50 anos que o país se democratizou, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte e alcançou a estabilidade política e econômica. Brasília, ao longo desses 50 anos, acompanhou os humores do país. Os mesmos vastos espaços da Esplanada que, na época da ditadura, se dizia que eram autoritários, porque facilmente controláveis, serviram depois à luta pela democracia e a grandes protestos. A construção de Brasília contribuiu para o surto inflacionário do início dos anos 70 e não correspondeu ao ideal igualitário de seus arquitetos. Por outro lado, a interiorização do país e a integração de regiões antes isoladas de fato ocorreram, na linha do que desejava JK. Creio que mesmo os críticos mais ferrenhos da mudança da capital poderiam hoje concordar que Brasília é parte essencial do que é o Brasil, seja o Brasil do atraso, seja o Brasil moderno. Mesmo que fosse possível destruir seu aspecto físico, a cidade sobreviveria sob a forma do mito que acompanhou toda a história do Brasil independente.

Ainda há, na Brasília de hoje, grandes aproveitadores como o pai do narrador?

Ao construir o personagem me interessava menos denunciar o aproveitador, que existe em toda parte, do que construir uma trajetória, uma evolução, em que não ficasse de lado a humanidade do personagem, suas contradições, suas ambições, a moral própria que o guiava e a imbricação entre seu arrivismo e o sonho fundacional. Pareceu-me interessante tentar iluminar os vícios e virtudes presentes no ato de criação da grande obra. Imagino que este, como os demais personagens, ainda possam estar vivos em Brasília e em outras partes. Sua aposta no futuro ainda é a mesma. A euforia é semelhante. As expectativas que envolvem alguns desses personagens são quase as mesmas: JK previa que o Brasil em dez anos seria a quarta ou quinta potência econômica do mundo. Esperemos, contudo, que hoje os erros sejam menores e as vontades estejam melhor ancoradas.

Além da cidade, que relação há entre os seus romances?

Os cinco diferem uns dos outros quanto a suas perspectivas, temas, escolha do tempo e até mesmo à técnica literária empregada. Cada um pode ser lido de maneira independente. No entanto, é possível estabelecer linhas de contato entre um e outro, sobretudo através de alguns personagens. O personagem secundário de um livro pode aparecer em outro como personagem central e, ao contrário, um personagem importante de um livro pode aparecer mais adiante como personagem secundário. Algumas questões também são revisitadas com novas feições: a da criação, da fundação, do novo.

O senhor não concorda com a definição romancista de Brasília que lhe é atribuída. Por quê?

O que cheguei a dizer é que uma cidade não define uma literatura. Dois romances produzidos numa mesma cidade podem ser mais diferentes entre si do que outros dois produzidos em cidades de continentes distintos. Somente para a literatura regionalista o lugar tem algum sentido definidor. A grande maioria dos autores que situam suas histórias no Rio, São Paulo, Nova York, Paris, Londres, Moscou ou em pequenas cidades ou aldeias não são conhecidos como fazendo uma ficção desses lugares. É possível, contudo, pensarmos na Paris de Balzac, na Londres de Dickens ou no Rio de Janeiro de Marques Rebelo. Se existir uma Brasília de João Almino, então humildemente devo aceitar a definição de romancista de Brasília , mas me parece que minha literatura não é enraizada, não está tão vinculada assim ao lugar, e sua dimensão, digamos assim, antropológica, sociológica ou descritiva da paisagem local é relativamente menos importante. O que ocorre, me parece, é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Por que Brasília, me perguntam às vezes? Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela excelentes escolhas, por sinal do que em Brasília.

O que lemos em Cidade livre é texto destinado a um blog. Mas o personagem-autor queixa-se amiúde da intervenção de um revisor chamado João Almino…

Foi uma maneira de introduzir mais uma camada de leitura e reforçar a impressão de que o narrador existe independentemente do autor cujo nome vem estampado na capa do livro. Tratando-se de um romance, nada impede, contudo, que esse João Almino revisor seja um personagem fictício.

O que acha dos blogs em geral e dos blogs literários em especial?

A internet vai compondo uma enorme enciclopédia, imperfeita, cheia de erros, hipertexto que se atualiza a cada instante e que lemos de forma fragmentada. Não acho mau que seja assim. Quanto mais se discutam e mais circulem as ideias melhor, e os blogs podem estar a serviço da discussão e da circulação das ideias. Os blogs literários podem prestar um bom serviço à literatura. Mas com a proliferação dos blogs em geral, para cada leitor vai se tornando cada vez mais importante a seleção daqueles com os quais tenha reais afinidades, pois ninguém tem tempo para tanta leitura dispersa.

Há quem veja um diálogo da sua obra com a do Machado de Assis maduro. O senhor concorda?

Machado é uma referência fundamental para a literatura brasileira. Muitas das questões que sua obra levanta continuam vivas e dialogando com nosso tempo. Por isso nunca deixo de ser um seu leitor assíduo, e o ano passado cheguei a publicar um livrinho sobre as Memórias póstumas, intitulado O diabrete angélico e o pavão. Nos meus romances há poucas referências explicitadas à obra de Machado. O leitor e crítico atentos poderão, contudo, perceber a homenagem que às vezes faço a ele e a seu humor, não para imitá-lo, nem para repeti-lo, mas para melhor me situar e em boa companhia diante das questões e inquietações de nossa atualidade.

Com todo o jeito de clássico

por Eustáquio Gomes*

Não é sempre que aparece um romance maduro, feito para durar, com atributos de clássico. Se as qualidades de um clássico são determinadas, entre outras coisas, pelo uso da linguagem, pela economia de meios e pela capacidade de espelhar a alma humana ou de reproduzir ou imaginar um construto social convincente, então talvez tenhamos em Cidade livre, de João Almino, um clássico no horizonte do possível.

João Almino já havia demonstrado essas qualidades em suas obras anteriores, desde Ideias para onde passar o fim do mundo (1987 ) até O livro das emoções (2008), todos ambientados em Brasília, que é também o cenário deste seu quinto romance, em que ele alcança o ápice de sua técnica, nada impedindo que a ultrapasse.

Nos romances anteriores, Almino fixou seus personagens com os conflitos do nômade ou do homem em transição, o que é próprio de Brasília no contexto da cidade em processo. Em Cidade livre, eles se movimentam em pleno leito embrionário da cidade, o bairro provisório com aspecto de velho oeste (que depois se transformou no atual Núcleo Bandeirante), feito de tábuas sobre o chão poeirento do Cerrado, onde pululavam candangos, engenheiros, empreiteiros e cavadores de toda ordem. No horizonte, o espectro da cidade que surgia aos poucos, do nada, desafiando até as imaginações mais férteis.

A ação é nucleada em torno de uma família sem laços consanguíneos que justifiquem esse nome, um simulacro das multidões desagregadas que afluíam diariamente para a cidade provisória, em busca de trabalho nos canteiros de obras e, quem sabe, de fartura ou mesmo de enriquecimento fácil. Nesse cenário, figuras históricas como o presidente Juscelino e seus tocadores de obra (Israel Pinheiro, Bernardo Sayão), assim como os visitantes ilustres que desfilam pelas esplanadas nuas a convite do governo (Fidel Castro, Foster Dulles, André Malraux e John dos Passos, entre outros), fazem o pano de fundo para os personagens efetivos da história, cujo poder é mínimo ou mesmo nulo.

O narrador, que nessa época ainda era um menino, usa mais tarde as lembranças do pai adotivo e as suas próprias além das sugestões que recebe dos leitores de um blog que mantém sobre o assunto para compor um painel que de modo algum é a história oficial dos primórdios de Brasília, mas antes a história da gente simples da cidade provisória. No núcleo familiar onde cai o foco de luz do romance, sobressaem as duas tias do futuro narrador, ambas objeto de sua paixão adolescente, o pai de profissão incerta e vida quixotesca, além de Valdivino, um operário de múltiplos talentos que a cidade estrangula em sua teia de interesses e cuja morte presumida passa a ser um enigma.

Ao discurso oficial da cidade futurista como símbolo do progresso material somava-se uma pletora de lendas, origem das muitas seitas salvacionistas que até hoje permeiam a cidade. Valdivino é um nexo entre o pragmatismo do pai e o holismo daqueles que asseguravam (e continuam assegurando) que o projeto da nova capital federal era algo escrito nas estrelas, seus executores não passando de instrumentos de um plano superior. O que, nas palavras da profetisa Íris Quelemém, personagem recorrente dos romances de Almino, se traduz da seguinte maneira: Deus fez os homens como máquinas, definiu como iam funcionar e o que iam fazer, deixando que eles improvisassem somente pequenas variações dentro de um movimento previsível . Eram ideias que ao próprio JK não eram infensas, muito menos aos devotos de dom Bosco, o padre italiano que, em sonho, teria calculado as coordenadas da nova Canaã a terra prometida que verterá leite e mel situando-a entre os paralelos 15 e 20, ou seja, o Planalto Central brasileiro. Ao menos, assim diz o mito.

Este mosaico, que em mãos menos experientes poderia se converter em linguagem de epopeia, em João Almino é descrito com palavras cruas e uma contenção que evita toda grandiloquência, inclusive nos diálogos, vivos e abundantes ao longo do livro, mas embutidos no corpo do texto como para combater o excesso de ênfase. Com isso o romance ganha musculatura em vez de gordura, conferindo verossimilhança a um tema profuso e nada fácil.

Ao eleger a capital federal como o locus privilegiado de suas ficções, Almino corre o risco permanente de se ver confirmado a contragosto na posição de romancista de Brasília , como adverte a ensaísta Walnice Nogueira Galvão na apresentação do livro. De fato, as recensões que tratam de sua obra têm insistido nesse equívoco. Bem vista a coisa, a Brasília dos romances de Almino e os dramas que neles se desenrolam são universais e funcionam como metáforas da condição humana. Não fosse assim, Machado seria meramente um escritor do Rio e Dalton Trevisan um contista de Curitiba, quando na realidade são autores universais. E William Faulkner, para cúmulo, seria o romancista do condado de Yoknapathawpha.

RIO – Ao publicar o quinto romance cuja ação e cenário se restringem à capital federal, o escritor e diplomata João Almino já se acostumou à pergunta: Brasília por quê? Nesta entrevista, ele explica: O que ocorre é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela . O livro mais recente, Cidade livre (Record, 240 páginas, R$ 39,90), focaliza justamente o período de construção da capital, há 50 anos.

Cidade livre focaliza o período fundador de Brasília. O senhor o preparou para que saísse nas comemorações dos 50 anos da cidade?

Nunca trabalho com prazos, e meus romances levam vários anos para serem escritos. Neste caso, contudo, quando me dei conta de que a pesquisa já estava feita e teria condições de concluir o romance, procurei assegurar-me com a editora de que houvesse coincidência com as comemorações, já que o romance tratava de uma história que se passava há 50 anos.

O senhor pesquisou muito?

Somente o necessário para criar atmosferas convincentes. Entre minhas leituras, que mais frequentemente abrangem a poesia, a ficção e a filosofia, incluí textos de história e ciências sociais, mapas, crônicas, entrevistas, notícias de jornal da época etc. Mas o fundamental, como sempre, é a criação dos personagens e de suas biografias, bem como a relação entre eles, em que surge conflito, paixão e mistério.

Como Brasília está aos 50?

Durante esses anos um presidente renunciou, outro foi deposto por um golpe, e o país viveu 20 anos sob a ditadura militar; outro ainda foi objeto de impeachment. Anos de chumbo e de turbulência, portanto. Mas foi também dentro desse período de 50 anos que o país se democratizou, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte e alcançou a estabilidade política e econômica. Brasília, ao longo desses 50 anos, acompanhou os humores do país. Os mesmos vastos espaços da Esplanada que, na época da ditadura, se dizia que eram autoritários, porque facilmente controláveis, serviram depois à luta pela democracia e a grandes protestos. A construção de Brasília contribuiu para o surto inflacionário do início dos anos 70 e não correspondeu ao ideal igualitário de seus arquitetos. Por outro lado, a interiorização do país e a integração de regiões antes isoladas de fato ocorreram, na linha do que desejava JK. Creio que mesmo os críticos mais ferrenhos da mudança da capital poderiam hoje concordar que Brasília é parte essencial do que é o Brasil, seja o Brasil do atraso, seja o Brasil moderno. Mesmo que fosse possível destruir seu aspecto físico, a cidade sobreviveria sob a forma do mito que acompanhou toda a história do Brasil independente.

Ainda há, na Brasília de hoje, grandes aproveitadores como o pai do narrador?

Ao construir o personagem me interessava menos denunciar o aproveitador, que existe em toda parte, do que construir uma trajetória, uma evolução, em que não ficasse de lado a humanidade do personagem, suas contradições, suas ambições, a moral própria que o guiava e a imbricação entre seu arrivismo e o sonho fundacional. Pareceu-me interessante tentar iluminar os vícios e virtudes presentes no ato de criação da grande obra. Imagino que este, como os demais personagens, ainda possam estar vivos em Brasília e em outras partes. Sua aposta no futuro ainda é a mesma. A euforia é semelhante. As expectativas que envolvem alguns desses personagens são quase as mesmas: JK previa que o Brasil em dez anos seria a quarta ou quinta potência econômica do mundo. Esperemos, contudo, que hoje os erros sejam menores e as vontades estejam melhor ancoradas.

Além da cidade, que relação há entre os seus romances?

Os cinco diferem uns dos outros quanto a suas perspectivas, temas, escolha do tempo e até mesmo à técnica literária empregada. Cada um pode ser lido de maneira independente. No entanto, é possível estabelecer linhas de contato entre um e outro, sobretudo através de alguns personagens. O personagem secundário de um livro pode aparecer em outro como personagem central e, ao contrário, um personagem importante de um livro pode aparecer mais adiante como personagem secundário. Algumas questões também são revisitadas com novas feições: a da criação, da fundação, do novo.

O senhor não concorda com a definição romancista de Brasília que lhe é atribuída. Por quê?

O que cheguei a dizer é que uma cidade não define uma literatura. Dois romances produzidos numa mesma cidade podem ser mais diferentes entre si do que outros dois produzidos em cidades de continentes distintos. Somente para a literatura regionalista o lugar tem algum sentido definidor. A grande maioria dos autores que situam suas histórias no Rio, São Paulo, Nova York, Paris, Londres, Moscou ou em pequenas cidades ou aldeias não são conhecidos como fazendo uma ficção desses lugares. É possível, contudo, pensarmos na Paris de Balzac, na Londres de Dickens ou no Rio de Janeiro de Marques Rebelo. Se existir uma Brasília de João Almino, então humildemente devo aceitar a definição de romancista de Brasília , mas me parece que minha literatura não é enraizada, não está tão vinculada assim ao lugar, e sua dimensão, digamos assim, antropológica, sociológica ou descritiva da paisagem local é relativamente menos importante. O que ocorre, me parece, é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Por que Brasília, me perguntam às vezes? Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela excelentes escolhas, por sinal do que em Brasília.

O que lemos em Cidade livre é texto destinado a um blog. Mas o personagem-autor queixa-se amiúde da intervenção de um revisor chamado João Almino…

Foi uma maneira de introduzir mais uma camada de leitura e reforçar a impressão de que o narrador existe independentemente do autor cujo nome vem estampado na capa do livro. Tratando-se de um romance, nada impede, contudo, que esse João Almino revisor seja um personagem fictício.

O que acha dos blogs em geral e dos blogs literários em especial?

A internet vai compondo uma enorme enciclopédia, imperfeita, cheia de erros, hipertexto que se atualiza a cada instante e que lemos de forma fragmentada. Não acho mau que seja assim. Quanto mais se discutam e mais circulem as ideias melhor, e os blogs podem estar a serviço da discussão e da circulação das ideias. Os blogs literários podem prestar um bom serviço à literatura. Mas com a proliferação dos blogs em geral, para cada leitor vai se tornando cada vez mais importante a seleção daqueles com os quais tenha reais afinidades, pois ninguém tem tempo para tanta leitura dispersa.

Há quem veja um diálogo da sua obra com a do Machado de Assis maduro. O senhor concorda?

Machado é uma referência fundamental para a literatura brasileira. Muitas das questões que sua obra levanta continuam vivas e dialogando com nosso tempo. Por isso nunca deixo de ser um seu leitor assíduo, e o ano passado cheguei a publicar um livrinho sobre as Memórias póstumas, intitulado O diabrete angélico e o pavão. Nos meus romances há poucas referências explicitadas à obra de Machado. O leitor e crítico atentos poderão, contudo, perceber a homenagem que às vezes faço a ele e a seu humor, não para imitá-lo, nem para repeti-lo, mas para melhor me situar e em boa companhia diante das questões e inquietações de nossa atualidade.

Com todo o jeito de clássico

por Eustáquio Gomes*

Não é sempre que aparece um romance maduro, feito para durar, com atributos de clássico. Se as qualidades de um clássico são determinadas, entre outras coisas, pelo uso da linguagem, pela economia de meios e pela capacidade de espelhar a alma humana ou de reproduzir ou imaginar um construto social convincente, então talvez tenhamos em Cidade livre, de João Almino, um clássico no horizonte do possível.

João Almino já havia demonstrado essas qualidades em suas obras anteriores, desde Ideias para onde passar o fim do mundo (1987 ) até O livro das emoções (2008), todos ambientados em Brasília, que é também o cenário deste seu quinto romance, em que ele alcança o ápice de sua técnica, nada impedindo que a ultrapasse.

Nos romances anteriores, Almino fixou seus personagens com os conflitos do nômade ou do homem em transição, o que é próprio de Brasília no contexto da cidade em processo. Em Cidade livre, eles se movimentam em pleno leito embrionário da cidade, o bairro provisório com aspecto de velho oeste (que depois se transformou no atual Núcleo Bandeirante), feito de tábuas sobre o chão poeirento do Cerrado, onde pululavam candangos, engenheiros, empreiteiros e cavadores de toda ordem. No horizonte, o espectro da cidade que surgia aos poucos, do nada, desafiando até as imaginações mais férteis.

A ação é nucleada em torno de uma família sem laços consanguíneos que justifiquem esse nome, um simulacro das multidões desagregadas que afluíam diariamente para a cidade provisória, em busca de trabalho nos canteiros de obras e, quem sabe, de fartura ou mesmo de enriquecimento fácil. Nesse cenário, figuras históricas como o presidente Juscelino e seus tocadores de obra (Israel Pinheiro, Bernardo Sayão), assim como os visitantes ilustres que desfilam pelas esplanadas nuas a convite do governo (Fidel Castro, Foster Dulles, André Malraux e John dos Passos, entre outros), fazem o pano de fundo para os personagens efetivos da história, cujo poder é mínimo ou mesmo nulo.

O narrador, que nessa época ainda era um menino, usa mais tarde as lembranças do pai adotivo e as suas próprias além das sugestões que recebe dos leitores de um blog que mantém sobre o assunto para compor um painel que de modo algum é a história oficial dos primórdios de Brasília, mas antes a história da gente simples da cidade provisória. No núcleo familiar onde cai o foco de luz do romance, sobressaem as duas tias do futuro narrador, ambas objeto de sua paixão adolescente, o pai de profissão incerta e vida quixotesca, além de Valdivino, um operário de múltiplos talentos que a cidade estrangula em sua teia de interesses e cuja morte presumida passa a ser um enigma.

Ao discurso oficial da cidade futurista como símbolo do progresso material somava-se uma pletora de lendas, origem das muitas seitas salvacionistas que até hoje permeiam a cidade. Valdivino é um nexo entre o pragmatismo do pai e o holismo daqueles que asseguravam (e continuam assegurando) que o projeto da nova capital federal era algo escrito nas estrelas, seus executores não passando de instrumentos de um plano superior. O que, nas palavras da profetisa Íris Quelemém, personagem recorrente dos romances de Almino, se traduz da seguinte maneira: Deus fez os homens como máquinas, definiu como iam funcionar e o que iam fazer, deixando que eles improvisassem somente pequenas variações dentro de um movimento previsível . Eram ideias que ao próprio JK não eram infensas, muito menos aos devotos de dom Bosco, o padre italiano que, em sonho, teria calculado as coordenadas da nova Canaã a terra prometida que verterá leite e mel situando-a entre os paralelos 15 e 20, ou seja, o Planalto Central brasileiro. Ao menos, assim diz o mito.

Este mosaico, que em mãos menos experientes poderia se converter em linguagem de epopeia, em João Almino é descrito com palavras cruas e uma contenção que evita toda grandiloquência, inclusive nos diálogos, vivos e abundantes ao longo do livro, mas embutidos no corpo do texto como para combater o excesso de ênfase. Com isso o romance ganha musculatura em vez de gordura, conferindo verossimilhança a um tema profuso e nada fácil.

Ao eleger a capital federal como o locus privilegiado de suas ficções, Almino corre o risco permanente de se ver confirmado a contragosto na posição de romancista de Brasília , como adverte a ensaísta Walnice Nogueira Galvão na apresentação do livro. De fato, as recensões que tratam de sua obra têm insistido nesse equívoco. Bem vista a coisa, a Brasília dos romances de Almino e os dramas que neles se desenrolam são universais e funcionam como metáforas da condição humana. Não fosse assim, Machado seria meramente um escritor do Rio e Dalton Trevisan um contista de Curitiba, quando na realidade são autores universais. E William Faulkner, para cúmulo, seria o romancista do condado de Yoknapathawpha.

RIO – Ao publicar o quinto romance cuja ação e cenário se restringem à capital federal, o escritor e diplomata João Almino já se acostumou à pergunta: Brasília por quê? Nesta entrevista, ele explica: O que ocorre é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela . O livro mais recente, Cidade livre (Record, 240 páginas, R$ 39,90), focaliza justamente o período de construção da capital, há 50 anos.

Cidade livre focaliza o período fundador de Brasília. O senhor o preparou para que saísse nas comemorações dos 50 anos da cidade?

Nunca trabalho com prazos, e meus romances levam vários anos para serem escritos. Neste caso, contudo, quando me dei conta de que a pesquisa já estava feita e teria condições de concluir o romance, procurei assegurar-me com a editora de que houvesse coincidência com as comemorações, já que o romance tratava de uma história que se passava há 50 anos.

O senhor pesquisou muito?

Somente o necessário para criar atmosferas convincentes. Entre minhas leituras, que mais frequentemente abrangem a poesia, a ficção e a filosofia, incluí textos de história e ciências sociais, mapas, crônicas, entrevistas, notícias de jornal da época etc. Mas o fundamental, como sempre, é a criação dos personagens e de suas biografias, bem como a relação entre eles, em que surge conflito, paixão e mistério.

Como Brasília está aos 50?

Durante esses anos um presidente renunciou, outro foi deposto por um golpe, e o país viveu 20 anos sob a ditadura militar; outro ainda foi objeto de impeachment. Anos de chumbo e de turbulência, portanto. Mas foi também dentro desse período de 50 anos que o país se democratizou, convocou uma Assembleia Nacional Constituinte e alcançou a estabilidade política e econômica. Brasília, ao longo desses 50 anos, acompanhou os humores do país. Os mesmos vastos espaços da Esplanada que, na época da ditadura, se dizia que eram autoritários, porque facilmente controláveis, serviram depois à luta pela democracia e a grandes protestos. A construção de Brasília contribuiu para o surto inflacionário do início dos anos 70 e não correspondeu ao ideal igualitário de seus arquitetos. Por outro lado, a interiorização do país e a integração de regiões antes isoladas de fato ocorreram, na linha do que desejava JK. Creio que mesmo os críticos mais ferrenhos da mudança da capital poderiam hoje concordar que Brasília é parte essencial do que é o Brasil, seja o Brasil do atraso, seja o Brasil moderno. Mesmo que fosse possível destruir seu aspecto físico, a cidade sobreviveria sob a forma do mito que acompanhou toda a história do Brasil independente.

Ainda há, na Brasília de hoje, grandes aproveitadores como o pai do narrador?

Ao construir o personagem me interessava menos denunciar o aproveitador, que existe em toda parte, do que construir uma trajetória, uma evolução, em que não ficasse de lado a humanidade do personagem, suas contradições, suas ambições, a moral própria que o guiava e a imbricação entre seu arrivismo e o sonho fundacional. Pareceu-me interessante tentar iluminar os vícios e virtudes presentes no ato de criação da grande obra. Imagino que este, como os demais personagens, ainda possam estar vivos em Brasília e em outras partes. Sua aposta no futuro ainda é a mesma. A euforia é semelhante. As expectativas que envolvem alguns desses personagens são quase as mesmas: JK previa que o Brasil em dez anos seria a quarta ou quinta potência econômica do mundo. Esperemos, contudo, que hoje os erros sejam menores e as vontades estejam melhor ancoradas.

Além da cidade, que relação há entre os seus romances?

Os cinco diferem uns dos outros quanto a suas perspectivas, temas, escolha do tempo e até mesmo à técnica literária empregada. Cada um pode ser lido de maneira independente. No entanto, é possível estabelecer linhas de contato entre um e outro, sobretudo através de alguns personagens. O personagem secundário de um livro pode aparecer em outro como personagem central e, ao contrário, um personagem importante de um livro pode aparecer mais adiante como personagem secundário. Algumas questões também são revisitadas com novas feições: a da criação, da fundação, do novo.

O senhor não concorda com a definição romancista de Brasília que lhe é atribuída. Por quê?

O que cheguei a dizer é que uma cidade não define uma literatura. Dois romances produzidos numa mesma cidade podem ser mais diferentes entre si do que outros dois produzidos em cidades de continentes distintos. Somente para a literatura regionalista o lugar tem algum sentido definidor. A grande maioria dos autores que situam suas histórias no Rio, São Paulo, Nova York, Paris, Londres, Moscou ou em pequenas cidades ou aldeias não são conhecidos como fazendo uma ficção desses lugares. É possível, contudo, pensarmos na Paris de Balzac, na Londres de Dickens ou no Rio de Janeiro de Marques Rebelo. Se existir uma Brasília de João Almino, então humildemente devo aceitar a definição de romancista de Brasília , mas me parece que minha literatura não é enraizada, não está tão vinculada assim ao lugar, e sua dimensão, digamos assim, antropológica, sociológica ou descritiva da paisagem local é relativamente menos importante. O que ocorre, me parece, é que chama a atenção que alguém situe suas histórias em Brasília. Por que Brasília, me perguntam às vezes? Parece ser bem menos surpreendente que um escritor brasileiro situe suas histórias em Budapeste, na Mongólia ou em Santiago de Compostela excelentes escolhas, por sinal do que em Brasília.

O que lemos em Cidade livre é texto destinado a um blog. Mas o personagem-autor queixa-se amiúde da intervenção de um revisor chamado João Almino…

Foi uma maneira de introduzir mais uma camada de leitura e reforçar a impressão de que o narrador existe independentemente do autor cujo nome vem estampado na capa do livro. Tratando-se de um romance, nada impede, contudo, que esse João Almino revisor seja um personagem fictício.

O que acha dos blogs em geral e dos blogs literários em especial?

A internet vai compondo uma enorme enciclopédia, imperfeita, cheia de erros, hipertexto que se atualiza a cada instante e que lemos de forma fragmentada. Não acho mau que seja assim. Quanto mais se discutam e mais circulem as ideias melhor, e os blogs podem estar a serviço da discussão e da circulação das ideias. Os blogs literários podem prestar um bom serviço à literatura. Mas com a proliferação dos blogs em geral, para cada leitor vai se tornando cada vez mais importante a seleção daqueles com os quais tenha reais afinidades, pois ninguém tem tempo para tanta leitura dispersa.

Há quem veja um diálogo da sua obra com a do Machado de Assis maduro. O senhor concorda?

Machado é uma referência fundamental para a literatura brasileira. Muitas das questões que sua obra levanta continuam vivas e dialogando com nosso tempo. Por isso nunca deixo de ser um seu leitor assíduo, e o ano passado cheguei a publicar um livrinho sobre as Memórias póstumas, intitulado O diabrete angélico e o pavão. Nos meus romances há poucas referências explicitadas à obra de Machado. O leitor e crítico atentos poderão, contudo, perceber a homenagem que às vezes faço a ele e a seu humor, não para imitá-lo, nem para repeti-lo, mas para melhor me situar e em boa companhia diante das questões e inquietações de nossa atualidade.

Com todo o jeito de clássico

por Eustáquio Gomes*

Não é sempre que aparece um romance maduro, feito para durar, com atributos de clássico. Se as qualidades de um clássico são determinadas, entre outras coisas, pelo uso da linguagem, pela economia de meios e pela capacidade de espelhar a alma humana ou de reproduzir ou imaginar um construto social convincente, então talvez tenhamos em Cidade livre, de João Almino, um clássico no horizonte do possível.

João Almino já havia demonstrado essas qualidades em suas obras anteriores, desde Ideias para onde passar o fim do mundo (1987 ) até O livro das emoções (2008), todos ambientados em Brasília, que é também o cenário deste seu quinto romance, em que ele alcança o ápice de sua técnica, nada impedindo que a ultrapasse.

Nos romances anteriores, Almino fixou seus personagens com os conflitos do nômade ou do homem em transição, o que é próprio de Brasília no contexto da cidade em processo. Em Cidade livre, eles se movimentam em pleno leito embrionário da cidade, o bairro provisório com aspecto de velho oeste (que depois se transformou no atual Núcleo Bandeirante), feito de tábuas sobre o chão poeirento do Cerrado, onde pululavam candangos, engenheiros, empreiteiros e cavadores de toda ordem. No horizonte, o espectro da cidade que surgia aos poucos, do nada, desafiando até as imaginações mais férteis.

A ação é nucleada em torno de uma família sem laços consanguíneos que justifiquem esse nome, um simulacro das multidões desagregadas que afluíam diariamente para a cidade provisória, em busca de trabalho nos canteiros de obras e, quem sabe, de fartura ou mesmo de enriquecimento fácil. Nesse cenário, figuras históricas como o presidente Juscelino e seus tocadores de obra (Israel Pinheiro, Bernardo Sayão), assim como os visitantes ilustres que desfilam pelas esplanadas nuas a convite do governo (Fidel Castro, Foster Dulles, André Malraux e John dos Passos, entre outros), fazem o pano de fundo para os personagens efetivos da história, cujo poder é mínimo ou mesmo nulo.

O narrador, que nessa época ainda era um menino, usa mais tarde as lembranças do pai adotivo e as suas próprias além das sugestões que recebe dos leitores de um blog que mantém sobre o assunto para compor um painel que de modo algum é a história oficial dos primórdios de Brasília, mas antes a história da gente simples da cidade provisória. No núcleo familiar onde cai o foco de luz do romance, sobressaem as duas tias do futuro narrador, ambas objeto de sua paixão adolescente, o pai de profissão incerta e vida quixotesca, além de Valdivino, um operário de múltiplos talentos que a cidade estrangula em sua teia de interesses e cuja morte presumida passa a ser um enigma.

Ao discurso oficial da cidade futurista como símbolo do progresso material somava-se uma pletora de lendas, origem das muitas seitas salvacionistas que até hoje permeiam a cidade. Valdivino é um nexo entre o pragmatismo do pai e o holismo daqueles que asseguravam (e continuam assegurando) que o projeto da nova capital federal era algo escrito nas estrelas, seus executores não passando de instrumentos de um plano superior. O que, nas palavras da profetisa Íris Quelemém, personagem recorrente dos romances de Almino, se traduz da seguinte maneira: Deus fez os homens como máquinas, definiu como iam funcionar e o que iam fazer, deixando que eles improvisassem somente pequenas variações dentro de um movimento previsível . Eram ideias que ao próprio JK não eram infensas, muito menos aos devotos de dom Bosco, o padre italiano que, em sonho, teria calculado as coordenadas da nova Canaã a terra prometida que verterá leite e mel situando-a entre os paralelos 15 e 20, ou seja, o Planalto Central brasileiro. Ao menos, assim diz o mito.

Este mosaico, que em mãos menos experientes poderia se converter em linguagem de epopeia, em João Almino é descrito com palavras cruas e uma contenção que evita toda grandiloquência, inclusive nos diálogos, vivos e abundantes ao longo do livro, mas embutidos no corpo do texto como para combater o excesso de ênfase. Com isso o romance ganha musculatura em vez de gordura, conferindo verossimilhança a um tema profuso e nada fácil.

Ao eleger a capital federal como o locus privilegiado de suas ficções, Almino corre o risco permanente de se ver confirmado a contragosto na posição de romancista de Brasília , como adverte a ensaísta Walnice Nogueira Galvão na apresentação do livro. De fato, as recensões que tratam de sua obra têm insistido nesse equívoco. Bem vista a coisa, a Brasília dos romances de Almino e os dramas que neles se desenrolam são universais e funcionam como metáforas da condição humana. Não fosse assim, Machado seria meramente um escritor do Rio e Dalton Trevisan um contista de Curitiba, quando na realidade são autores universais. E William Faulkner, para cúmulo, seria o romancista do condado de Yoknapathawpha.