Um defunto (como Brás Cubas, de Machado de Assis) vive BrasíliaUm defunto (como Brás Cubas, de Machado de Assis) vive BrasíliaUm defunto (como Brás Cubas, de Machado de Assis) vive BrasíliaUm defunto (como Brás Cubas, de Machado de Assis) vive Brasília

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JOSÉ, Brasília, ANO XI, n. 586, de 17 a 23 de outubro de 1987

Brasília como cenário de um grande romance (que antes do seu lançamento, dia 24, na Feira do Livro, em Brasília já recebe críticas consagradoras) vai trazer ao cartaz um dos seus mais discretos e notáveis moradores: o diplomata João Almino, autor de um clássico da literatura política brasileira “Democratas Autoritários”, sobre os constituintes de 1946.

O romance “Idéias para onde passar o fim do mundo” (Editora Brasiliense), de João Almino, é uma história densa, que assume e recupera uma experiência clássica da literatura brasileira, para muitos o nosso mais importante romance: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

A nota biográfica de apresentação do autor é discreta, mas não deixa de situá-lo. Aos 37 anos João Almino é apresentado como “um nordestino, diplomata, ensaista, professor e fotógrafo, publicou, expôs, plantou árvores, mas, além de uma linda filha, o que de mais sério fez nos últimos anos foi o romance Idéias para onde passar o fim do mundo. Irrealista pós-romântico, acha a realidade inaceitável. É da geração pós-68. Não foi exilado, não pegou em armas nem pega ondas. Num dia de março de 1970, em Brasília, tomou as primeiras notas para um romance. Um pouco dos lugares por onde passou, do sertão do Nordeste a Paris, acabou se imprimindo sobre sua Brasília mítica de Idéias para onde passar o fim do mundo. Viveu em Paris de 1977 a 1980. Ali, neste último ano, começou a atual versão deste romance, que sobreviveu às bombas de 1981 em Beirute. Dois anos, de guerra, de 1980 a 1982, o ajudaram a dar o molho apocalíptico. 0 México (1982-1985) acrescentou a magia. E o ponto final ocorreu em Brasília, onde mora desde 1985.”

O importante, porém, é o grande retorno do memorial na literatura brasileira. Como em Machado, cujo Brás Cubas, morto e sepultado, narra as quase 300 páginas de suas memórias num dos mais sugestivos jogos textuais de nossa literatura.

João Almino, com seu “Idéias para onde passar o fim do mundo” retoma esse pré-texto e o desfia, provocando antes mesmo do lançamento de seu livro polêmicas e exegeses como as que ocuparam a Primeira Página da Folha Ilustrada (o ótimo suplemento cultural da Folha de São Paulo).

O tema não existe, segundo definição do próprio autor. Assim como não existe um personagem principal – morto, enterrado. São fábulas que se superpõem num cenário surreal que, por acaso, é Brasília. A cidade é uma espécie de linha física na qual se ampararam as várias vertentes e veredas criadas pela imaginação do autor.

Nessa vereda cabem todos os exercícios formais possíveis: o teatro, a narrativa linear, o fluxo-de-consciência e o uso do linosigno, do verso, do poema enfim.

O uso do termo “fábula” revela bem as intenções do autor: remeter um recado poético, de significação mais profunda, a partir de uma exacerbação, por assim dizer, do campo fabulativo. Composto como um roteiro cinematográfico, concebido a partir da visão de uma foto do momento inaugural da cidade quando residia em Paris, “Idéias para onde passar o fim do mundo” mescla o delírio surrealista mais completo à composição poética correta, matemática, escultural.

Como neste trecho:

“No começo uma mistura de Eisenstein com Cecil B. de Mille, Brasília em grande angular. Ao som do Guarani, prédios euforicamente construindo-se por escravos voluntários e modernos, operários voltados para o futuro da humanidade. E logo a tomada de cena da inauguração, JK descendo de helicóptero.

E a poeira
vermelha
nas ruas
ainda nuas
cobrindo as casacas
dos altos burocratas.

Como se vê um romance que centra-se na linguagem, no trato da linguagem a partir do livre curso das forças do imaginário e de um pé firme no momento político vivido pelo país tanto, naquela época como hoje.

Um lançamento, na pior das hipóteses, provocante.

JOSÉ, Brasília, ANO XI, n. 586, de 17 a 23 de outubro de 1987

Brasília como cenário de um grande romance (que antes do seu lançamento, dia 24, na Feira do Livro, em Brasília já recebe críticas consagradoras) vai trazer ao cartaz um dos seus mais discretos e notáveis moradores: o diplomata João Almino, autor de um clássico da literatura política brasileira “Democratas Autoritários”, sobre os constituintes de 1946.

O romance “Idéias para onde passar o fim do mundo” (Editora Brasiliense), de João Almino, é uma história densa, que assume e recupera uma experiência clássica da literatura brasileira, para muitos o nosso mais importante romance: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

A nota biográfica de apresentação do autor é discreta, mas não deixa de situá-lo. Aos 37 anos João Almino é apresentado como “um nordestino, diplomata, ensaista, professor e fotógrafo, publicou, expôs, plantou árvores, mas, além de uma linda filha, o que de mais sério fez nos últimos anos foi o romance Idéias para onde passar o fim do mundo. Irrealista pós-romântico, acha a realidade inaceitável. É da geração pós-68. Não foi exilado, não pegou em armas nem pega ondas. Num dia de março de 1970, em Brasília, tomou as primeiras notas para um romance. Um pouco dos lugares por onde passou, do sertão do Nordeste a Paris, acabou se imprimindo sobre sua Brasília mítica de Idéias para onde passar o fim do mundo. Viveu em Paris de 1977 a 1980. Ali, neste último ano, começou a atual versão deste romance, que sobreviveu às bombas de 1981 em Beirute. Dois anos, de guerra, de 1980 a 1982, o ajudaram a dar o molho apocalíptico. 0 México (1982-1985) acrescentou a magia. E o ponto final ocorreu em Brasília, onde mora desde 1985.”

O importante, porém, é o grande retorno do memorial na literatura brasileira. Como em Machado, cujo Brás Cubas, morto e sepultado, narra as quase 300 páginas de suas memórias num dos mais sugestivos jogos textuais de nossa literatura.

João Almino, com seu “Idéias para onde passar o fim do mundo” retoma esse pré-texto e o desfia, provocando antes mesmo do lançamento de seu livro polêmicas e exegeses como as que ocuparam a Primeira Página da Folha Ilustrada (o ótimo suplemento cultural da Folha de São Paulo).

O tema não existe, segundo definição do próprio autor. Assim como não existe um personagem principal – morto, enterrado. São fábulas que se superpõem num cenário surreal que, por acaso, é Brasília. A cidade é uma espécie de linha física na qual se ampararam as várias vertentes e veredas criadas pela imaginação do autor.

Nessa vereda cabem todos os exercícios formais possíveis: o teatro, a narrativa linear, o fluxo-de-consciência e o uso do linosigno, do verso, do poema enfim.

O uso do termo “fábula” revela bem as intenções do autor: remeter um recado poético, de significação mais profunda, a partir de uma exacerbação, por assim dizer, do campo fabulativo. Composto como um roteiro cinematográfico, concebido a partir da visão de uma foto do momento inaugural da cidade quando residia em Paris, “Idéias para onde passar o fim do mundo” mescla o delírio surrealista mais completo à composição poética correta, matemática, escultural.

Como neste trecho:

“No começo uma mistura de Eisenstein com Cecil B. de Mille, Brasília em grande angular. Ao som do Guarani, prédios euforicamente construindo-se por escravos voluntários e modernos, operários voltados para o futuro da humanidade. E logo a tomada de cena da inauguração, JK descendo de helicóptero.

E a poeira
vermelha
nas ruas
ainda nuas
cobrindo as casacas
dos altos burocratas.

Como se vê um romance que centra-se na linguagem, no trato da linguagem a partir do livre curso das forças do imaginário e de um pé firme no momento político vivido pelo país tanto, naquela época como hoje.

Um lançamento, na pior das hipóteses, provocante.

JOSÉ, Brasília, ANO XI, n. 586, de 17 a 23 de outubro de 1987

Brasília como cenário de um grande romance (que antes do seu lançamento, dia 24, na Feira do Livro, em Brasília já recebe críticas consagradoras) vai trazer ao cartaz um dos seus mais discretos e notáveis moradores: o diplomata João Almino, autor de um clássico da literatura política brasileira “Democratas Autoritários”, sobre os constituintes de 1946.

O romance “Idéias para onde passar o fim do mundo” (Editora Brasiliense), de João Almino, é uma história densa, que assume e recupera uma experiência clássica da literatura brasileira, para muitos o nosso mais importante romance: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

A nota biográfica de apresentação do autor é discreta, mas não deixa de situá-lo. Aos 37 anos João Almino é apresentado como “um nordestino, diplomata, ensaista, professor e fotógrafo, publicou, expôs, plantou árvores, mas, além de uma linda filha, o que de mais sério fez nos últimos anos foi o romance Idéias para onde passar o fim do mundo. Irrealista pós-romântico, acha a realidade inaceitável. É da geração pós-68. Não foi exilado, não pegou em armas nem pega ondas. Num dia de março de 1970, em Brasília, tomou as primeiras notas para um romance. Um pouco dos lugares por onde passou, do sertão do Nordeste a Paris, acabou se imprimindo sobre sua Brasília mítica de Idéias para onde passar o fim do mundo. Viveu em Paris de 1977 a 1980. Ali, neste último ano, começou a atual versão deste romance, que sobreviveu às bombas de 1981 em Beirute. Dois anos, de guerra, de 1980 a 1982, o ajudaram a dar o molho apocalíptico. 0 México (1982-1985) acrescentou a magia. E o ponto final ocorreu em Brasília, onde mora desde 1985.”

O importante, porém, é o grande retorno do memorial na literatura brasileira. Como em Machado, cujo Brás Cubas, morto e sepultado, narra as quase 300 páginas de suas memórias num dos mais sugestivos jogos textuais de nossa literatura.

João Almino, com seu “Idéias para onde passar o fim do mundo” retoma esse pré-texto e o desfia, provocando antes mesmo do lançamento de seu livro polêmicas e exegeses como as que ocuparam a Primeira Página da Folha Ilustrada (o ótimo suplemento cultural da Folha de São Paulo).

O tema não existe, segundo definição do próprio autor. Assim como não existe um personagem principal – morto, enterrado. São fábulas que se superpõem num cenário surreal que, por acaso, é Brasília. A cidade é uma espécie de linha física na qual se ampararam as várias vertentes e veredas criadas pela imaginação do autor.

Nessa vereda cabem todos os exercícios formais possíveis: o teatro, a narrativa linear, o fluxo-de-consciência e o uso do linosigno, do verso, do poema enfim.

O uso do termo “fábula” revela bem as intenções do autor: remeter um recado poético, de significação mais profunda, a partir de uma exacerbação, por assim dizer, do campo fabulativo. Composto como um roteiro cinematográfico, concebido a partir da visão de uma foto do momento inaugural da cidade quando residia em Paris, “Idéias para onde passar o fim do mundo” mescla o delírio surrealista mais completo à composição poética correta, matemática, escultural.

Como neste trecho:

“No começo uma mistura de Eisenstein com Cecil B. de Mille, Brasília em grande angular. Ao som do Guarani, prédios euforicamente construindo-se por escravos voluntários e modernos, operários voltados para o futuro da humanidade. E logo a tomada de cena da inauguração, JK descendo de helicóptero.

E a poeira
vermelha
nas ruas
ainda nuas
cobrindo as casacas
dos altos burocratas.

Como se vê um romance que centra-se na linguagem, no trato da linguagem a partir do livre curso das forças do imaginário e de um pé firme no momento político vivido pelo país tanto, naquela época como hoje.

Um lançamento, na pior das hipóteses, provocante.

JOSÉ, Brasília, ANO XI, n. 586, de 17 a 23 de outubro de 1987

Brasília como cenário de um grande romance (que antes do seu lançamento, dia 24, na Feira do Livro, em Brasília já recebe críticas consagradoras) vai trazer ao cartaz um dos seus mais discretos e notáveis moradores: o diplomata João Almino, autor de um clássico da literatura política brasileira “Democratas Autoritários”, sobre os constituintes de 1946.

O romance “Idéias para onde passar o fim do mundo” (Editora Brasiliense), de João Almino, é uma história densa, que assume e recupera uma experiência clássica da literatura brasileira, para muitos o nosso mais importante romance: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

A nota biográfica de apresentação do autor é discreta, mas não deixa de situá-lo. Aos 37 anos João Almino é apresentado como “um nordestino, diplomata, ensaista, professor e fotógrafo, publicou, expôs, plantou árvores, mas, além de uma linda filha, o que de mais sério fez nos últimos anos foi o romance Idéias para onde passar o fim do mundo. Irrealista pós-romântico, acha a realidade inaceitável. É da geração pós-68. Não foi exilado, não pegou em armas nem pega ondas. Num dia de março de 1970, em Brasília, tomou as primeiras notas para um romance. Um pouco dos lugares por onde passou, do sertão do Nordeste a Paris, acabou se imprimindo sobre sua Brasília mítica de Idéias para onde passar o fim do mundo. Viveu em Paris de 1977 a 1980. Ali, neste último ano, começou a atual versão deste romance, que sobreviveu às bombas de 1981 em Beirute. Dois anos, de guerra, de 1980 a 1982, o ajudaram a dar o molho apocalíptico. 0 México (1982-1985) acrescentou a magia. E o ponto final ocorreu em Brasília, onde mora desde 1985.”

O importante, porém, é o grande retorno do memorial na literatura brasileira. Como em Machado, cujo Brás Cubas, morto e sepultado, narra as quase 300 páginas de suas memórias num dos mais sugestivos jogos textuais de nossa literatura.

João Almino, com seu “Idéias para onde passar o fim do mundo” retoma esse pré-texto e o desfia, provocando antes mesmo do lançamento de seu livro polêmicas e exegeses como as que ocuparam a Primeira Página da Folha Ilustrada (o ótimo suplemento cultural da Folha de São Paulo).

O tema não existe, segundo definição do próprio autor. Assim como não existe um personagem principal – morto, enterrado. São fábulas que se superpõem num cenário surreal que, por acaso, é Brasília. A cidade é uma espécie de linha física na qual se ampararam as várias vertentes e veredas criadas pela imaginação do autor.

Nessa vereda cabem todos os exercícios formais possíveis: o teatro, a narrativa linear, o fluxo-de-consciência e o uso do linosigno, do verso, do poema enfim.

O uso do termo “fábula” revela bem as intenções do autor: remeter um recado poético, de significação mais profunda, a partir de uma exacerbação, por assim dizer, do campo fabulativo. Composto como um roteiro cinematográfico, concebido a partir da visão de uma foto do momento inaugural da cidade quando residia em Paris, “Idéias para onde passar o fim do mundo” mescla o delírio surrealista mais completo à composição poética correta, matemática, escultural.

Como neste trecho:

“No começo uma mistura de Eisenstein com Cecil B. de Mille, Brasília em grande angular. Ao som do Guarani, prédios euforicamente construindo-se por escravos voluntários e modernos, operários voltados para o futuro da humanidade. E logo a tomada de cena da inauguração, JK descendo de helicóptero.

E a poeira
vermelha
nas ruas
ainda nuas
cobrindo as casacas
dos altos burocratas.

Como se vê um romance que centra-se na linguagem, no trato da linguagem a partir do livre curso das forças do imaginário e de um pé firme no momento político vivido pelo país tanto, naquela época como hoje.

Um lançamento, na pior das hipóteses, provocante.


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